Semanas depois do terremoto de 2011, o Mister Pink senta-se ao microfone do velho amigo Shocker Ōno e conta tudo: os pães de Yokosuka, o bentō na cabeça do Niibori, a audição de 15 mil ienes diante de Sonny Chiba — e o café gelado que ele quase cuspiu quando Junji Yamaoka distribuiu as cores de Carranger.

"Mister Pink" deu corpo a cinco heroínas cor-de-rosa, da Pink Racer (1996) à Bouken Pink (2006). "Para mim ele é um companheiro de longa data — na verdade é como um irmão mais novo", apresentou Shocker Ōno, que o conhece desde os bastidores do Kōrakuen, quando o convidado ainda era um adolescente da JAC. A resposta: "Bom dia! Sou o Motokuni... Nakagawa Motokuni. Não estou acostumado com isso, viu."
"Motokuni" se escreve com uns kanjis difíceis, que ninguém consegue ler de primeira.
Nem eu conseguia! É o kanji "moto" de Ajinomoto (素) com o "shū" de Kyūshū (州). É raro; praticamente não existe outro igual. Hoje em dia quase não tenho oportunidade de dizer "Nakagawa": quando me apresento, já digo logo "sou o Motokuni". Até ao telefone, se digo "é o Motokuni", todo mundo entende quem é.
E isso já devem ter me perguntado umas cinquenta mil vezes: "achei que fosse sobrenome". É meu nome de verdade, desde o jardim de infância! Se fosse para inventar um nome artístico, ninguém escolheria um que não dá para ler, com tanta desvantagem assim. E tem gente que ainda escreve errado: colocam o radical de água no "shū" (洲). Aí sou invadido pela água!
A primeira vez que registrei o Motokuni foi num evento beneficente do Hiroshi Fujioka, em Yokosuka, num lugar sem nada em volta. Bateu fome e alguém mandou: "Motokuni, vai comprar pão!". E o Motokuni sumiu. Meia hora, uma hora... Quando voltou, levou bronca — e, em vez de se desculpar, começou: "Este pão aqui é um pão maravilhoso!", elogiando com paixão os pães que tinha comprado. "Que sujeito engraçado é esse?" Essa foi minha primeira impressão.
Pode ser, pode ser. Mas a padaria ficava longe! Era subindo um morro, descendo ladeira... não tinha nada por perto, fui procurar e o tempo foi passando.
E mesmo assim, em vez de explicar o atraso, você defendeu a excelência dos pães.
Com o chamado do Niibori veio a época dos shows de heróis do NS Building, em Shinjuku. No Golden Week aquilo virou tradição, e você era um dos membros centrais.
Que época divertida! Fizemos Dairanger, Kakuranger, Ohranger, até Carranger. Uma bagunça total: num show normal são dias de ensaio; lá, a gente se reunia às oito da manhã para o show das onze. O roteiro terminado na véspera era copiado na hora, e íamos marcando a luta ali mesmo: "você entra aqui", "essa fala é sua", "ei, quem fala isso é o ator, não você!". Aí dava onze horas e não estava pronto...
Mas mesmo com toda aquela liberdade, todo mundo pensava em entregar algo bem-feito, algo que fizesse as crianças e os fãs felizes. Nisso ninguém economizava esforço.
No show de Ohranger, a luta estava marcada com espada — e a espada não veio do estúdio. Acharam uma espada de treino parecida, e a filha pequena de alguém da equipe, uma menina do primário muito habilidosa, recortou uma estrela de papelão e "transformou" a arma numa espada de Ohranger. Funcionou lindamente no palco.
No meio do show, o vilão gritava: "vocês estão fracos porque a reforma cibernética ficou incompleta! Voltem para a re-reforma!" — e na segunda metade a gente voltava com o figurino completo.

Hoje quero ouvir também o que veio antes: sua infância e como você entrou nesse mundo.
Nasci em Higashimurayama, em Tóquio — a mesma cidade do Ken Shimura! Eu adorava os Drifters, então ele era um orgulho local, praticamente um cidadão honorário. Quando eu viajava em excursão da escola, bastava dizer "sou de Higashimurayama" que todo mundo respondia: "Ah, a cidade do Ken Shimura!".
Eu via muita TV. Sábado era o dia perfeito: Gorenger às sete e meia, os Drifters às oito e, na sequência, G-Men '75 às nove. E no dia seguinte era domingo, então podia dormir tarde sem levar bronca. Era pura felicidade.
E como o Japan Action Club entrou nessa história?
Nos créditos das séries de heróis sempre aparecia escrito "Japan Action Club". Criança não presta atenção em kanji, mas katakana fica na memória: "o que será esse clube?". Na sexta série, o filme do Igano Kabamaru, com elenco da JAC, estreou em sessão dupla com um filme do Jackie Chan — e, sendo sincero, eu fui pelo Jackie Chan! Mas no filme da JAC apareciam rostos que eu conhecia: o Kenji Ōba — "esse aí é o Gavan!". Tudo se conectou. No segundo ano do ginásio eu já estava decidido: "preciso entrar na JAC". Na minha classe, quando eu dizia isso, as meninas respondiam: "deixa de ser bobo!". E com razão: eu fazia basquete, tinha fôlego, mas não sabia dar um bakuten, nunca tinha feito caratê, nada. Só que ninguém queria tanto quanto eu.
No anúncio da audição estava escrito: banca examinadora com Shin'ichi Chiba, Hiroyuki Sanada, Etsuko Shihomi e Hikaru Kurosaki. Indo lá, eu veria todos eles! Para um garoto de ginásio, já valia a viagem. A taxa era de 15 mil ienes. Foi no Toshimaen, no vestiário gigantesco da piscina, em dois dias, com milhares de candidatos do Japão inteiro — faixas pretas de caratê, ginastas... e eu, um moleque do clube de basquete.
Caí primeiro com o Toshimichi Takahashi, que fazia os generais vilões — entrei na fila dele de propósito, e ele foi gentilíssimo. Depois o Jun'ichi Haruta, o Goggle Black, bem mais seco: "o que você sabe fazer?" — eu, deslumbrado, nem sabia responder. O Satoshi Kurihara me perguntou sobre bullying nas escolas — ué?! não era para cantar? E por último o Shin'ichi Chiba em pessoa, sério: "Você tem confiança de que consegue conciliar isso com a escola?". "S-sim, tenho!" Naquela altura eu já pensava: "não vou passar mesmo; só de ter visto todos eles, os 15 mil ienes já valeram como ingresso".
E veio a carta de aprovação.
Veio! Até hoje não sei o que viram em mim. Mas fui prestar com dois ou três amigos, todos passaram — e todos desistiram. "Então eu também desisto", pensei.
Foi minha mãe quem disse: "se todo mundo vai largar, largar junto é desperdício. Justamente porque os outros vão desistir é que você devia ir."
Nakagawa, sobre a decisão de entrar na 17ª turma da JACNa escola de formação eu era o caçula: "ei, moleque de ginásio!". Depois da aula eu ia até a sede em Shinjuku e treinava até nove, dez da noite. Era sofrido. Aí anunciaram o gasshuku em Hakone — "participa quem quiser". Como assim, não é obrigatório?! Mas eu tinha visto na TV os especiais do gasshuku da JAC, todo mundo correndo de agasalho igual pelo meio do nada — era exatamente para aquilo que eu tinha entrado. Fui.
E não era tão terrível: eu vinha da rotina do basquete, o corpo aguentava, enquanto os adultos morriam ofegantes. E na pausa o pessoal comprava refrigerante e isotônico na máquina! Eu era da geração "não se bebe água no treino" — e ali estavam adultos tomando Pocari à vontade. "O mundo dos adultos tem escolhas", pensei. "Isso aqui é bem melhor que o clube da escola."
Foi lá que os veteranos começaram a me acolher, e foi lá que aprendi bakuten, mortal, trampolim. Quando você encontra as pessoas certas, elas ensinam: "tenta de novo, vai" — e de repente você faz. Da 17ª turma, que teve milhares de inscritos, hoje na ativa sobramos eu, o Nagase, a Naoko Kamio e a Keiko Hashimoto. Só. Eu mesmo vivia pensando em largar "amanhã" — e já se vão vinte anos.
Terminada a formação, chegou a hora dos sets. Você lembra do primeiro?
Lembro demais. Não dormi direito de nervoso, saí cedíssimo... e me perdi no caminho da estação de Ōizumi-gakuen até o estúdio da Toei. Fiquei uma hora rodando! Pedi informação no posto policial, subi a escada errada, fui parar na sala da equipe de câmera... até que um veterano gritou: "Ei, é aqui! Corre que o ônibus vai sair!". E a primeira locação foi justamente Yorii, a meca das explosões — aquela pedreira em Chichibu onde toda série já filmou. Quando vi aquele paredão de rocha em 360 graus que eu conhecia da TV, fiquei emocionado. Mas novato não tem tempo de se emocionar!
E o primeiro papel de verdade veio em Kidō Keiji Jiban.
No primeiro episódio! Fui um dos soldados rasos, e foi a primeira vez que me vi na tela. Assisti mil vezes: "esse aí rolando no chão sou eu!". Ninguém mais distingue — está todo mundo com a mesma máscara. "Esse terceiro que apanhou agora sou eu!" Mas a alegria de ter aparecido era enorme.
A história que ficou para sempre foi a do bentō na cabeça do Kazuo Niibori. Não sei o que me deu: apoiei meu bentō no bagageiro do ônibus de locação. O Niibori sentado embaixo. O ônibus balançou numa estrada de pedreira e... o bentō inteiro despencou na cabeça dele. Foi tão além da bronca que virou outra coisa: o Niibori, com repolho no ombro, fez a piada — "seu desgraçado!" — e os veteranos ficaram tão atônitos que acabou em riso. Um milagre eu ter sobrevivido.
E teve o pedido do Michihiro Takeda: anotei "yakisoba", a comida chegou, e o Takeda sem nada na mão. "Seu idiota! Eu disse NIKUSOBA!" Eu nunca tinha ouvido falar em nikusoba! Resultado: por uns dez anos ele repetiu para todo mundo: "não deixem esse aí anotar pedido — e se mandarem comprar pão, ele não volta nunca mais!".
Essa do pão fui eu que contei para ele!
Outros que me deixavam duro de nervoso eram os irmãos Hachisuka, gêmeos idênticos — e novato morto de medo não encara veterano de frente, então eu não sabia distinguir quem era quem! Com o traje era fácil: o câmera chamava todo mundo pela cor. Mas sem o traje... quando mandavam "leva isso lá para o Yuichi", eu ia rezando. "Obrigado." Ufa, era ele! E até hoje fico tenso diante deles. Ter gente assim é bom: é o que mantém a coluna ereta.
No set, o Yamaoka era a pessoa com quem eu menos tinha falado na vida. Eu cumprimentava e ele nem olhava na minha cara. Até que um dia, do nada: "vou beber hoje; você vem?". Fui sem entender nada, ele pagou tudo, e no fim: "até mais". Só isso! Os veteranos diziam "o Yamaoka é osso duro"... e eu pensando: ele paga o jantar, paga a bebida — é um ótimo sujeito! E nessas noites ele falava do ofício: "a gente existe para dar sonho às crianças".
Boa parte da gramática visual dos Super Sentai foi inventada pelo Yamaoka: o mortal na frente da explosão, os cinco caindo do céu lado a lado...
E as explosões coloridas! Naquele tempo só existia a explosão de cimento e a bola de fogo de gasolina. Foi o Yamaoka que cismou: "quero cor na explosão!". Pó comum é pesado, não voa; testaram mil coisas com o pessoal de efeitos até conseguirem. Eu estava no set quando as primeiras explosões coloridas subiram — sou testemunha ocular da história! E ele nunca sai por aí dizendo "fui eu que inventei".

Quando acabou Blue SWAT, o Yamaoka me disse: "você vem comigo para o Sentai" — e me deu o Acha, o mordomo do império Baranoia, em Ohranger. Ele adorava comer e beber, e eu fui engordando. Pensei: "tudo bem, estou fazendo vilão cômico mesmo; herói não é para mim".
Aí, lá por outubro, ele convocou para um café o pessoal que faria Carranger e começou a distribuir: "Yokoyama, você é o Red. Takeuchi, o Blue. O Yellow vou dar para o Ōbayashi... e o Pink vou dar para este aqui." Quase cuspi o café! E todo mundo se levantou da mesa: "O QUÊ?! O MOTOKUNI?!". É que eu estava GORDO! Um ano de Acha e de izakaya! E o Yamaoka, na maior calma: "de vez em quando um Pink gorducho também é válido" — que declaração mais irresponsável! "Depois é só dar um jeito na dieta."
E a dieta?
O Takeuchi — um monge, um asceta, treina e corre todos os dias da vida — topou me levar junto: "começamos amanhã". Só que ele é rápido demais, aquilo não é gente! "Pode ir na frente", eu dizia, e ele disparava... mas voltava correndo até mim, me acompanhava um pouco, disparava de novo e voltava de novo. Corria o dobro para não me abandonar. Fiquei feliz demais.
Um dia explodi com o Yamaoka: "NÃO VOU beber! Se quiser me tirar do papel, tira logo!". E ele só respondeu: "tá, entendi". Nunca insistia. Eu malhava na sala ao lado enquanto a turma fazia a festa, e ele só dizia: "quando achar que já deu, vem para cá". Quando a dieta deu certo, ele saiu dizendo para todo mundo: "esse rapaz se esforçou como poucos". Aí valeu tudo. Dali em diante virou "Pink, Pink, Pink" — e devo tudo ao Yamaoka. Ele enxergava dentro da gente uma aptidão que nem nós conhecíamos.
"Uma vez me levaram ao sushi e eu só comia gari, o gengibre. E o Yamaoka para o sushiman: esse aí só come garlic! Achando que tinha feito a piada do século."
Nakagawa, sobre a dieta da Pink Racer
Que naturalidade no papel feminino! O senhor chegou a treinar onnagata, como no kabuki? Movimentos femininos escapam no dia a dia? E o senhor assiste à própria atuação?
Treino de onnagata... nenhum! Naquele começo, a prioridade absoluta era emagrecer. Eu corria mais de uma hora por dia pensando: "vai que é pegadinha e amanhã desmentem". Pesquisar interpretação feminina veio depois — e eu tinha diante de mim os melhores modelos possíveis: o Hachisuka e o Takeda. Era só estudar os dois.
Movimentos femininos no cotidiano: acho que não! Mas tem um detalhe: o traje ajuda. Vestindo o rosa, com aquela silhueta, o corpo simplesmente não faz pose desleixada — você olha para baixo e pensa: "desse jeito está errado, né?". Não é a cabeça que corrige, é o corpo.
E preciso me assistir o quanto antes, sempre! Naquela época era película: o jeito mais rápido era correr para a sessão de dublagem, o afureco, e conferir junto: "isso ficou ruim, corto já na filmagem de quarta"; "isso funcionou, mantém e aumenta". Ia lapidando semana a semana.
E dizem que as próprias atrizes aprendiam com vocês.
Tem disso! Atriz vendo o próprio personagem transformado e pensando: "preciso ser mais graciosa, igual a ele". Na minha geração, a referência era o Takeda: a Denzi Pink, a Pink Five... de tirar o chapéu. E o Hachisuka, então: a White Swan dele em Jetman, fugindo dos golpes com aquele "kyaa, para, para!" de dama... A gente assistia do set pensando: "que absurdo de bom". Até hoje, vendo o Hachisuka trabalhar, só penso: "forte demais".
"Vestindo o rosa, o corpo não faz pose desleixada. Não é a cabeça que corrige, é o corpo."
Nakagawa, sobre o traje que ensinaHoje os fãs já dizem "Pink é o Motokuni". E daqui para a frente, o que você quer?
Já são uns 22 anos de estrada, e estou chegando aos 40. Este ano quero alargar o campo de visão. Conheci o Act League, teatro de improviso em formato de competição: a plateia dá os temas na hora e os times constroem uma peça inteira ali, no impulso. Já subi nesse palco — e aquilo somou demais. Fiz dois anos seguidos de kaijin, um monstro diferente a cada semana, em Go-onger e Shinkenger; se você repete a fórmula, o diretor cobra: "faz algo diferente". Ter repertório é essencial, mas repertório sem prontidão não serve. O improviso treina exatamente isso: tirar algo do zero, no segundo em que pedem.
Quero testar todas as possibilidades: o suit actor, e também o ator Motokuni Nakagawa.
Para fechar, uma mensagem para quem está ouvindo.
Hoje contei um monte de bobagem, mas a história que vivi até aqui foi divertida demais. E a vida ainda é longa: vou me esforçar para brilhar cada vez mais daqui em diante. Continuem torcendo por mim! Muito obrigado!